O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM, por enquanto) acaba de anunciar um plano –sintetizado pela CET- para melhorar o trânsito e o controle da poluição atmosférica na cidade. É simples e consiste basicamente em criar “anéis viários” na cidade, a partir de avenidas já existentes ou não.
Várias vias já conhecidas pelo trânsito intenso, como a Aricanduva e a Radial Leste, fariam parte dos tais anéis viários, cujo plano também contemplaria dois corredores paralelos à marginal do Tietê.
Mais ou menos como o ex-governador e candidato derrotado à Presidência da República, José Serra, já havia tentado fazer com o Rodoanel (que começou a sair do papel pelas mãos do também ex-governador Mario Covas) que, apesar de 12 anos para ficar pronto, ainda não está terminado, nem mostrou a que veio. Vale lembrar que a própria marginal do Tietê foi ampliada às pressas para as eleições, ganhou uma nova via expressa e continua rigorosamente na mesma.
Aliás, esse é o ponto curioso do projeto: parte do pressuposto que o principal –senão único- problema do tráfego é que há poucas vias disponíveis para os carros andarem. E que se essas vias forem construídas, jamais lotarão como lotam as atuais.
Esse tipo de premissa já foi superada pelos fatos há décadas. Todas as grandes obras do obreiro-mor Paulo Maluf foram engolidas pelo trânsito e deixaram sequelas na paisagem e no planejamento urbano (e quando disputou a prefeitura, em 2008, ele ainda tinha como principal bandeira asfaltar os rios Tietê e Pinheiros para criar novas pistas).
O mesmo para as obras viárias dos tucanos. Nem Rodoanel, nem via expressa da marginal estão dando conta do recado. E nem se passou uma década ainda entre o lançamento das obras e sua completa aniquilação pelo excesso de veículos.
É um pouco ilógico imaginar que aumentando a capacidade das vias trafegáveis, o volume de carros vai se manter o mesmo para sempre. A tendência é contrária: com mais vias e a propaganda de tráfego melhor, é de se supor que o volume de carros aumente. Em 2010, as vendas de carros bateram recordes históricos por aqui. O que faz Kassab pensar que seria diferente de agora em diante?
Pior: as enchentes recorrentes que deixaram prejuízos neste janeiro acontecem justamente por causa dessa premissa de se priorizar obras viárias para favorecer o uso do carro ao invés do transporte coletivo.
É o transporte coletivo eficiente, de qualidade e a preço acessível o que deveria estar no topo do topo do topo das prioridades paulistas e paulistanas caso o interesse fosse mesmo diminuir trânsito e tornar mais ágeis as locomoções de um ponto a outro da metrópole.
O transporte aqui é caro, ineficaz, desarticulado. A linha Amarela, propagandeada por Serra durante as eleições, é piada: só funciona no período em que os interessados nela já estão no trabalho ou ainda não saíram dele.
Enquanto a passagem do ônibus ruim, cheio, parado nos corredores que não funcionam, sobe para irreais R$ 3, Kassab inventa que vai melhorar o trânsito tentando facilitar o uso do carro e que, com isso, veja só, ainda vai, de quebra, melhorar a qualidade do ar. A equação não fecha. Será que alguém já desenhou isso para ele?